A ilusão do empreendedorismo e o esvaziamento dos direitos trabalhistas
Por professor Álvaro Capute, bacharel em Ciências Humanas
Você já ouviu alguém dizer que a solução para seus problemas financeiros está em "empreender"? Que basta força de vontade, criatividade e foco para vencer na vida? Esse discurso, hoje tão difundido por influenciadores digitais, cursos motivacionais e até campanhas governamentais, está longe de ser inocente. Ele alimenta um ideal de autonomia que, na prática, vem servindo para justificar precarização, insegurança e sobrecarga emocional.
Por trás da imagem do "empreendedor de sucesso", que venceu as dificuldades sozinho, está uma narrativa perigosa: a de que os trabalhadores não precisam mais de direitos, sindicatos ou leis protetivas — precisam apenas de “atitude”. Mas será mesmo?
Os direitos trabalhistas não são burocracias atrapalhando o progresso. São instrumentos que, ao longo da história, surgiram para proteger o ser humano do desgaste físico, psicológico e social provocado por um sistema econômico que prioriza o lucro acima de tudo.
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| Fonte: Brasil de Fato - Foto: Jaqueline Deister |
Inspirado em autores como Karl Marx, podemos lembrar que o trabalho não protegido se torna alienante: transforma pessoas em engrenagens. Já Norbert Elias nos ajuda a entender que a legislação trabalhista é resultado de um processo civilizatório, no qual o Estado assume o papel de mediador entre forças sociais desiguais — capital e trabalho.
A regulamentação do trabalho é, portanto, condição básica para a dignidade, a saúde mental e a liberdade real.
Aqui entra a crítica mais profunda: o empreendedorismo, em muitos casos, não é uma alternativa viável, mas um instrumento ideológico. Ao colocar o sucesso e o fracasso exclusivamente nas costas do indivíduo, essa narrativa invisibiliza as desigualdades sociais, educacionais e econômicas que limitam drasticamente as chances de ascensão real.
Como nos ensinou o sociólogo Pierre Bourdieu, a chamada “meritocracia” é eficaz em ocultar os privilégios herdados. Afinal, nem todos têm capital, estrutura familiar, contatos, tempo ou condições mínimas para “abrir seu próprio negócio”.
E mesmo quem consegue abrir uma empresa enfrenta um mercado competitivo e hostil: segundo o SEBRAE, 60% dos negócios no Brasil fecham antes dos cinco anos. Os números não mentem. O sucesso é exceção, mas o fracasso é tratado como culpa pessoal.
Essa lógica do empreendedorismo, na verdade, representa um deslocamento do modelo tradicional de opressão para um modelo internalizado de autoexploração. Quem levanta esse alerta é o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra A Sociedade do Cansaço.
“O sujeito neoliberal é um trabalhador que explora a si mesmo e acredita estar se realizando.”
Nessa realidade, as jornadas de trabalho são intermináveis, o descanso vira pecado, e a produtividade é a única medida de valor. O “empreendedor de si mesmo” carrega nas costas o peso de ser patrão e empregado ao mesmo tempo — sem direitos, sem segurança, sem rede de apoio.
Ao contrário do que promete, o empreendedorismo universalizado não promove liberdade, mas fragilidade social. A filósofa Hannah Arendt argumentava que liberdade não é apenas escolher, mas participar ativamente do mundo comum. O que vemos, porém, é um modelo que fragiliza laços, esvazia o tempo, desumaniza o cotidiano.
É impossível falar em liberdade quando se vive refém de algoritmos, metas inatingíveis e instabilidade permanente. Liberdade sem dignidade é apenas aparência.
A retórica empreendedora, quando se torna política pública ou diretriz social, legitima o desmonte dos direitos trabalhistas. Transforma garantias em obstáculos e trata a proteção legal como “trava” para a inovação. O resultado? Mais pessoas adoecidas, endividadas, e presas a uma lógica de autossuficiência impossível de sustentar.
Essa transição silenciosa — do trabalhador protegido para o “empreendedor precarizado” — desarticula a noção de justiça social. Como lembra Boaventura de Sousa Santos:
“Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza, e o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.”
Essa máxima nos convida a reimaginar a sociedade não a partir do risco individual, mas da solidariedade coletiva.
Não se trata de negar a relevância do empreendedorismo em setores específicos ou desvalorizar quem empreende com esforço legítimo. Mas é fundamental recolocar os direitos sociais no centro da discussão. Sem eles, não há democracia plena, não há liberdade real, não há futuro viável.
O trabalho digno, protegido por leis justas e equilibradas, não é um obstáculo ao progresso. É condição para que esse progresso seja humano.

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