Onde estão as pessoas de verdade?
Por professor Álvaro Capute, bacharel em Ciências Humanas
Nunca conheci ninguém que admitisse ter levado uma porrada da vida. Ao menos, não publicamente, não de forma franca, despida de vaidade. Todos os rostos que cruzam meu caminho, todos os nomes que ecoam nas conversas de ocasião, parecem ter vivido trajetórias impecáveis. São campeões de si mesmos, vencedores em tudo o que se propuseram, intocáveis em suas posturas, virtuosos em seus relatos. E eu… tantas vezes vil, tantas vezes mesquinho, tantas vezes humano.
Em tempos onde a imagem se sobrepõe à essência, a perfeição se tornou a única narrativa possível. Nas redes sociais, nos encontros sociais, nos corredores profissionais, não há espaço para quem tropeça, para quem erra, para quem revela suas fragilidades sem disfarce. Todos carregam, orgulhosos, o escudo de suas conquistas e o silêncio conveniente sobre suas derrotas. Como se confessar um erro, uma covardia, um ato mesquinho, fosse pecado capital. Como se admitir a imperfeição os destituísse de seu status de “cidadãos exemplares".
E, no entanto, a vida real não é feita desses personagens imaculados. Ela pulsa nos equívocos cotidianos, nas fraquezas confessadas em voz baixa, nas histórias que envergonham e, por isso mesmo, humanizam. É desconcertante perceber que quase ninguém fala sobre isso. Ninguém relata publicamente as vezes em que foi covarde, arrogante, submisso ou grotesco. As confissões, quando existem, são sempre seletivas, cuidadosamente editadas para parecerem humanas sem jamais macular a imagem de superioridade.
Por vezes, desejo ouvir alguém admitir um deslize genuíno, um gesto vil, uma covardia não justificada pela emoção do momento. Um reconhecimento cru, desprovido de verniz. Porque não há nada mais solitário do que conviver com a sensação de ser o único a errar, a tropeçar, a agir contra os próprios princípios. É um incômodo que ecoa: será que só eu, nesta terra de homens e mulheres perfeitos, sou capaz de me reconhecer pequeno?
A sociedade contemporânea parece ter abolido o direito à falha. Vivemos cercados por semideuses de fachada, que posam de íntegros e exemplares, mas que, ao menor sinal de crise, desmontam suas máscaras longe dos olhos alheios. Somos treinados para exibir conquistas e disfarçar derrotas, para ostentar vitórias e ocultar vulnerabilidades. E, nesse processo, a humanidade verdadeira vai sendo sufocada, substituída por personagens planejados para agradar e impressionar.
Não há problema algum em ser ridículo de vez em quando. Em ter atitudes mesquinhas, reconhecer erros, admitir fraquezas. A grandeza está, justamente, na capacidade de assumir a própria imperfeição. Mas quem, neste mundo cada vez mais artificial, ousa confessar que foi vil? Quem se atreve a contar suas vergonhas, suas fraquezas reais, sem a desculpa da emoção momentânea ou da provocação alheia?
Estamos carentes de gente de verdade. De pessoas que saibam rir de si mesmas, que reconheçam as próprias quedas, que consigam olhar nos olhos do outro e dizer: “eu também errei”. Porque é nessa partilha sincera das nossas pequenezas que reside a essência mais bonita da condição humana.
E eu, cansado dessa perfeição de vitrines, sigo na busca pelos que, como eu, já tropeçaram no grotesco da existência. Porque só quem admite suas misérias pode, de fato, compreender a grandeza do outro.
(Adaptado com base no "Poema em Linha Reta" de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

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