O cansaço como condição humana patológica da modernidade

Por Álvaro Capute, professor e Bacharel em Ciências Humanas

A "sociedade do cansaço" é um conceito elaborado pelo filósofo Byung-Chul Han que se propõe a diagnosticar a condição patológica da modernidade ocidental, marcada por uma autoexploração intensa e um excesso de positividade. Em seu ensaio homônimo, Han contrapõe a sociedade disciplinar, em que o controle externo se fazia presente por meio da repressão, à sociedade do desempenho, na qual a pressão para a autossuperação e a busca incessante por resultados se impõem como imperativos internos. Segundo o autor, essa transformação não só eleva o nível de exigência sobre o indivíduo, mas também elimina a função contida da negatividade – que permitia a regulação dos impulsos –, resultando em um desgaste psíquico generalizado.

No mundo do trabalho, a sociedade do cansaço se manifesta por meio de jornadas prolongadas e da hiperconectividade, fatores que conduzem ao burnout e a outras disfunções psicológicas. O modelo neoliberal atual incentiva a ideia de que cada indivíduo é, simultaneamente, o empreendedor e o trabalhador de sua própria existência. Essa lógica de autogerenciamento implica uma constante autoavaliação, onde o fracasso é internalizado e a pressão por desempenho se torna autoimposta. Consequentemente, a produtividade é mantida por meio de uma autoexploração que, a longo prazo, reduz a capacidade criativa e gera um elevado índice de esgotamento, afetando a saúde mental e física dos trabalhadores.

       A qualidade de vida também sofre impactos significativos. O ritmo acelerado e a constante exigência por resultados afastam o indivíduo de momentos de lazer e contemplação, essenciais para o equilíbrio emocional. A ausência de pausas e o acúmulo de estímulos geram uma sensação de vazio, dificultando a construção de espaços de reflexão e autoconhecimento. Como resultado, o cansaço não se restringe apenas ao âmbito físico, mas se estende ao emocional e ao existencial, afetando a satisfação pessoal e a percepção de bem-estar.

Nas relações interpessoais, o paradigma da autoexploração tende a promover um isolamento dissimulado. Ao se voltar excessivamente para si mesmo, o “sujeito do desempenho” se torna incapaz de estabelecer vínculos autênticos e de cultivar a empatia necessária para o diálogo e a convivência. Essa transformação afeta não apenas o ambiente familiar e social, mas também a dinâmica dos espaços públicos, onde a cooperação e a solidariedade são fundamentais para o fortalecimento dos direitos humanos.

Do ponto de vista dos direitos humanos e das políticas públicas, os efeitos da sociedade do cansaço impõem desafios significativos. A crescente prevalência de doenças relacionadas ao estresse e à depressão demanda a implementação de estratégias que promovam a saúde mental, a redução da jornada de trabalho e a criação de espaços de proteção para os trabalhadores. Políticas públicas voltadas para a regulamentação do ambiente laboral, a promoção do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e a garantia de direitos fundamentais são essenciais para mitigar os efeitos destrutivos desse novo paradigma.

Sendo assim, o conceito de sociedade do cansaço de Byung-Chul Han aponta para uma realidade em que a busca incessante por eficiência e desempenho, típica do neoliberalismo, gera um ambiente de autoexploração e esgotamento que permeia todas as esferas da vida. O impacto no mundo do trabalho, na qualidade de vida, nas relações interpessoais e nos direitos humanos exige uma reflexão profunda e a elaboração de políticas que visem resgatar a saúde integral do indivíduo, promovendo um equilíbrio sustentável entre a produtividade e o bem-estar coletivo.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Decadência da Sociedade Moderna e a Supervalorização do Dinheiro no Sistema Capitalista

Consciência Política - Parte 1: Democracia